Domingo, Agosto 31, 2008

Livro do Desassossego

Um livro composto de fragmentos. Uma "autobiografia sem factos" extremamente instigante onde o semi-heterônimo Bernardo Soares revela suas confissões no tom mais intimista que Fernando Pessoa nos permite conhecer.
Poesia em prosa que aborda vários aspectos da vida de um ser humano aparentemente comum, que só não é mais comum porque provém da imaginação do grande poeta.
Eu gosto muito de livros assim, onde o escritor avança vários quilômetros de intelectualidade à frente do leitor.
Não é de hoje que Fernando Pessoa me deixa "fora do ar".
E nesse livro ele alcança o que eu chamo de alienação poética.
Tenho muita coisa a dizer sobre o Livro do Desassossego, mas não gosto de explicar coisas que eu absorvi de livros, porque penso que um livro é uma experiência pessoal que por mais que o que esteja escrito seja uma coisa só, cada um, na sua leitura, vai interpretar de uma forma diferente. Então fica aí a dica.

"As coisas modernas são
(1) A evolução dos espelhos;
(2) Os guarda-fatos.
Passamos a ser criaturas vestidas, de corpo e alma.
E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passamos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passamos - homens, corpos - à categoria de animais vestidos.
Não é só o fato de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação desse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quase nenhuma relação com os elementos da nossa elegância natural do corpo nem com os dos seus movimentos.
Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, através de uma razão social, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta."

(Fernando Pessoa - Livro do Desassossego)

2 opiniões:

saulo disse...

"eu não sou o que você vê
também nada daquilo que visto
sou o que penso que sou
e sou aquilo que sinto"

-s. cedilha 31/08

Rafael Carvalhêdo disse...

Nossa! Gostei muito desse trecho de Fernando Pessoa... quer dizer, Bernardo Soares! rs

Realmente profundo, reflexivo e de uma sinceridade gigantesca! Quem para pra prestar atenção em tudo aquilo que sem perceber veste, diferenciando o que de fato é nosso, nosso corpo? Tem que ser gênio. Um gênio do raciocício e da conciência sobre si. E dizem que poetas são um poço de sensibilidade. Eu discordo, são pessoas tão racionais, que usam sua sensibilidade como um instrumento.

Ótimo post e ótima leitura. Vou ler Tbm! ;)

www.ponto-d-vista.blogspot.com