Domingo, Março 16, 2008

Demogorgon


"Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda.

Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.

Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos.


Não, não, isso não!

Tudo menos saber o que é o Mistério!

Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,

Não vos ergais nunca!

O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!


Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!

A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo,

Deve trazer uma loucura maior que os espaços

Entre as almas e entre as estrelas.


Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente;

Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente...

Que bafo horrível e frio me toca em olhos fechados?

Não os quero abrir de viver! Ó Verdade, esquece-te de mim!"


Álvaro de Campos



Deparei-me com este poema há alguns dias e como não consigo parar de ler a obra de Fernando Pessoa, me deixei levar a fim de tentar entendê-lo ou pelo menos senti-lo com mais clareza, mesmo que não haja necessidade disso porque a função da poesia não é trazer soluções para nada e muito menos esclarecer alguma coisa, a poesia é para ser lida e para envolver.
Aos meus leigos olhos a aparente abdicação do poeta dessa verdade que o persegue parece deixá-lo em um nível maior de consciência.
Enquanto muitos buscam esclarecimento o autor dos versos simplesmente abre mão dele deixando bem claro que a vida cercada de mistérios é mais suportável, pois saber das coisas dói e existem pessoas que conhecem algumas razões que não deviam, mas explicam alguma coisa. O poeta não quer ouvir essa voz que grita dentro da sua cabeça, seja ela qual for. A ignorância para ele talvez traga maior conforto.

E o sol vago? Seria esta rua que o poeta cita no primeiro verso uma visão de uma rua qualquer que tenha sol, um sol que preenche esta rua por algum motivo e que deve permanecer vago onde há casas paradas porque são casas e casas ficam paradas e gente que anda porque é gente e gente tem que andar? E a tristeza? É cheia de pavor porque traz consigo alguma verdade?
O que pude captar com maior transparência foi a liberdade do poeta ao dizer que prefere continuar cego ao passo que o mundo busca abrir os olhos para o Mistério.

8 opiniões:

Anônimo disse...

não tenho um caderno para escrever as coisas que sinto;
nem mesmo as bobagens cotidianas que me vem à cabeça/
à cabeça sim, como um prato que se come frio
ou uma lembrança que se matuta no peito.
decifra-me ou te devoro.

Anônimo disse...

amor não podia ser quadradro;
assim ele poderia rolar pelas escadas e sempre teria alguém para tentar agarrá-lo.
mas ,como toda bola, ele iria escorrer, decorrer, liquidar, transladar.;
e não existe um goleiro perfeito.

mas o amor não era ao quadradro?
agora é ao goleiro.
[?]

Anônimo disse...

sou akele que ninguem pode ver
ninguem pode tocar
nem sentir

sou akele que voce pode ver
voce pode tocar
voce pode sentir

sou akele que ninguem pode voce
ninguem pode voce
nem voce

Feänor disse...

Pessoa foi, é e sempre será um poeta entre poetas!

Eu realmente não sei o que ele quis dizer com este poema, mas creio que a poesia se presta a isso: que cada um interprete à sua maneira.

E eu interpreto fazendo uma correlação com o início do conto de Lovecraft "Call of Chtullu":

“A coisa mais misericordiosa do mundo, acho eu, é a incapacidade da mente humana correlacionar tudo que ela contém. Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a mares tenebrosos de infinidade, e não estávamos destinados a chegar longe. As ciências, cada uma puxando para seu próprio lado, nos causaram poucos danos até agora, mas algum dia a junção das peças do conhecimento disperso descortinará visões tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição dentro dela que só nos restará enlouquecer com a revelação ou fugir da iluminação mortal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas.”

É isto que enxergo no poema... Mas é apenas minha visão pessoal, não uma verdade declarada.

Vanessa disse...

Fernando Pessoa,um dos meus poetas preferidos.
E seu heterônimo de Álvaro de Campos, é encantador.
É um poeta de mil faces, que não muitas vezes não conseguimos entender, apenas sentir.
Exato o que você disse, nós procuramos entender tudo, queremos saber de todo misterio que nos ronda.
E nesse poema o lindo dele é que o poeta abre mão disso...
ele quer o secreto, não quer a verdade.
muito bom.

www.essencianoar.blogspot.com

•Mogui• disse...

olááá!cááára adorei seus poemas!!
queria escrever assim tbm^^
eu escrevo poemas góticos sabe..
mas não chegão a ser tão bons assim ^^
adorei!MESMO!
vou colocar no meu blog o link pra estar sempre disponível pra mim dar uma passadinha por aqui!!
beijo!


~>se quizer dar uma passada^^
www.mogui-blogger.com.br

Douglas Lourenço disse...

muito bom poema, Fernando Pessoa é o melhor, e obrigado pelo comentario no meu blog, pode colocar nos links o do meu blog sim, sem problemas....bjo

Anônimo disse...

não escrevo demais por pensar que as coisas que redigo são uma verdadeira merda.,
redigo apenas o essencial.
só assim evito o meu próprio fim.

as coisas acima são minhas,

eu confesso!