Quinta-feira, Novembro 15, 2007

Meu ópio

Deitada, nua, no chão frio do quarto, ignorando a presença da cama macia de grossas e quentes cobertas, sinto o frio penetrando dolorosamente na minha carne, como se estivesse a desvirginar os meus poros. Logo me vêm à mente alguns pensamentos desconexos: o gasto que tenho durante o mês e no dinheiro que não é suficiente...

O corpo arrepia, não sei se é de frio ou de medo.

Fora desta casa existem muitas vidas que, ou estão boas, ou, assim como a minha, padecem sem reação.

Eu aqui, deitada, olho para o teto e me lembro que hoje eu vi a lua. Ela estava grande e baixa, envolvida por uma película dourada sobre um pano de fundo azul marinho com detalhes em prata. Nesta noite quando estava chegando a casa eu me sentia completamente deslocada do mundo. Nem poderia imaginar porque cargas d’água eu estaria agora deitada no chão do quarto e nua.

Viro o rosto para o lado e noto as axilas úmidas, o cabelo tem um cheiro quase sem perfume.

O chão duro me remete a pensar o quão duro é também enfrentar certas situações, algumas chegam a ser piores do que o próprio chão. Não pelo fato de não serem boas situações, mas por mim, pela dureza que se encontrava meu peito antes de tudo, e mesmo depois, pela dificuldade em aceitar.


O chão... O frio...


Lembro da primeira vez que os arrepios começaram a percorrer meu corpo por causa daqueles toques tão delicados e simplesmente diferentes de todos os outros que os antecederam.
Lembro da forma suave com a qual a gente se beija e faz minha consciência pesar como chumbo, lembro de como é bom estar entre seus braços sedentos de carinho e me aproximar do seu corpo quente que arde de desejo a olhos vistos, lembro do seu olhar quando estamos entre outras pessoas imaginando qual seria a reação delas se descobrissem que quando estamos longe de tudo a gente se gosta e se gosta muito.
Penso em tudo, gosto cada vez mais de tudo, principalmente do beijo, da língua, da saliva, do cheiro doce, das mãos que não têm “porto certo e seguem sempre ao acaso”.

Ainda no chão eu me toco... E sinto que agora o frio já é parte de mim e me dá prazer associá-lo aos meus pensamentos. E eu gozo um gozo seco que dói. Longe do calor daquele corpo qualquer gozo é vazio, apesar de que agora todos os desejos partem dele. Sinto meu organismo em desordem e de forma tardia algo escorre de mim e, de repente, tudo volta ao normal. O tempo que eu fiquei deitada com a pele rente ao chão fez com que este se esquentasse, o que é motivo para que eu me levante, embora queira continuar nua até que os pensamentos voltem às contas não pagas, ao dever não cumprido, e até que eu me esqueça, por ora, da lua grande e baixa lá fora.



Deito na cama e adormeço sem pensar em nada.



5 opiniões:

Beto-kun disse...

Otimos post, continue

abraço

Joo disse...

É realmente uma linda historia de amor, aparentemente proibido..repleto de um sutil erotismo..sera realidade ou ficçao?!
Você é muito talentosa..continue sempre....
Bjooos

Helio Sales Jr. disse...

Uma palavra: CORAGEM.
Não pelo erotismo, pela entrega, por saber admitir que não encontra lugar certo no mundo.
Mas pela coragem de dizer-se incompleta.
Maravilhoso texto. Quero mais!

Anônimo disse...

Sabia que esse foi o melhor texto postado... Se bem q sou suspeit.. pra falar. Saudades milll... Quero entrar em contato.
Bjos na boca

Joo!!

Diana Maurício disse...

Saudades também... apareça qdo quiser!!