Domingo, Outubro 28, 2007

Sobre o tempo

Sobre a mesa da escrivaninha
Ainda estão os papéis que deixei na noite anterior
E em cima dos quais eu pensei sobre o dia seguinte.

O dia seguinte já se foi
E hoje também há de ir.

Sobre estes mesmos papéis
Pensei nas carícias que quisera receber
E não recebi.
Previ os olhares que não são nada
Além de olhares.
Senti no corpo os calafrios
Provenientes de uma imaginação fecunda.

Junto ao real criei expectativas
Que também não deram em nada
E sabe-se lá se vai dar em alguma coisa!
Ainda faço questão de saber o porquê de tudo isto.
Mas sinto que chegará o momento
Em que não precisarei de tais respostas.

Penso que podem chegar a mim
E tomarem meu corpo,
De qualquer forma, para qualquer fim
Porque dele não necessito para viver do jeito que vivo.

Que este céu escuro e barulhento de agora
Que não é o mesmo simplesmente
Cinza e derretido de antes
Sirva de algum complemento a estes
Magros versos que escrevo sobre os papéis de ontem.

Que esta chuva que ainda não caiu
Por não ser a hora
Sirva de lição para mim
Que se fosse chuva iria querer entender
O motivo inútil da ainda não ter caído.

Se nada acontece é porque o
Que tinha que acontecer era nada.
Fico absolutamente feliz em ser nada
E não ter que arrumar os papéis sobre a escrivaninha
Para que amanhã eles continuem a me render algumas linhas a mais.

Estou dentro do quarto de porta fechada,
Mas o quarto em frente está com a janela aberta
A fazer entrar o vento (agora forte – talvez tenha chegado
A hora da chuva) por debaixo da porta
Que só atinge os meus pés por estarem na direção dele.
Diferente das coisas que escrevo
Que também se deparam com portas fechadas
E que não ousam entrar por baixo delas
Porque sabem que na sua direção não existe pé algum.

Pode ser que até o fim deste poema
A chuva ainda não tenha caído.
Mas o que importa a chuva
Que não é a razão pela qual eu escrevo no momento?
O que importa o vento
Que empurra uma sacola na rua, se não estou na rua
E não vim ao mundo em forma de sacola?

Não consigo terminar o que escrevo
Porque não sei qual o objetivo disto,
E talvez seja por acreditar que para escrever um poema
Eu não preciso de objetivos é que eu queria continuar escrevendo.
Se eu soubesse qual o objetivo de todas estas palavras
(se é que elas o têm), talvez não estivesse a escrever,
Nem precisaria de papéis espalhados
Sobre a escrivaninha a me inspirar.

Finalmente chove!
Como que para me mostrar
Que de fato tudo tem seu momento.
E apesar de não ser sobre a chuva que eu escrevo
(mas ela insiste em molhar minha letra)
Chegou o momento de colocar um fim em tudo isto.

3 opiniões:

MaxReinert disse...

Nossa!
Que escrita poderosa!
Muito bom...
vou voltar por aqui!

Eliseu Antonio Gomes disse...

Gostei desse versos.

Um para vc:

Na esquina do sujeito encontrei o substantivo masculino abraçado com o feminino trocando carícias e declarações em gerúndio!

Vc tem alma de poeta, cara de poeta e blog de poeta!

Parabéns!

Carol Barcellos disse...

Gostei muito do modo como você escreve, gosto muito de acompanhar teu pensamento, toda hora me identificar com ele. Vou voltar toda hora!!!

Beijos!